13 junho 2016

Revista MAIS / Reportagem: "Nem tudo o vento levou..."

11:33

Reportagem publicada na Revista MAIS do Diário de Notícias da Madeira. 
(Texto: Andreína Ferreira. Fotos: Joana Sousa/Aspress)

Eram treze, sobrou um. O moinho de Joaquim da Mata é o único que ainda funciona em Gaula. A MAIS foi descobrir esta relíquia que abre ao público nos primeiros sábados de cada mês, entre as 9 e as 12 horas.

Dos treze moinhos existentes no concelho de Santa Cruz, resta apenas um, o moinho de Joaquim da Mata. Ou melhor, o moinho de Agostinho da Mata, seu pai, que devido à idade avançada, agora com 94 anos, deixou a profissão de moleiro e entregou esta relíquia nas mãos do filho e de um dos netos que “lá muito de vez em quando ainda deita a mão ao tio”.

Ao público, as portas abrem-se nos primeiros sábados de cada mês, entre as 9 e as 12 horas e, apesar da adesão ser pouca, ainda existe quem por lá passe com um “punhado” de milho para moer. Sim, milho. Porque o trigo “já lá vai o tempo em se davam ao trabalho de plantar”.

Mais grosso ou mais fino, os pedidos variam conforme os fregueses. Há quem ainda moa milho para consumo próprio, mas a maioria leva-o apenas para alimentar as galinhas.

Bom dia, bom dia, Sr. Joaquim. É o do costume. E nem é preciso falar. Joaquim da Mata coloca o moinho a trabalhar e deita o milho na moega. Dá manivela e a água começa a correr com mais intensidade. O grão vai caindo na pedra, que o mói bem miudinho para posteriormente peneirar. Finalizado o processo, o moleiro enche diversas sacas e vai entregar o produto ao freguês, percorrendo um caminho bem estreito, até chegar à estrada principal.

Único moinho de Gaula a funcionar abre portas ao primeiro sábado de cada mês entre as 9 e as 12 horas e ainda há quem leve um punhado de milho a moer.

A MAIS acompanhou o percurso. E, nesta estrada que cabe pouco mais do que um carro, encontrou Agostinho da Mata, o antigo moleiro, sentado à sombra, debaixo de umas folhas de vinha.

Com o peito cheio de orgulho por poder dizer que é dono desta estrutura quase extinta na Madeira, contou-nos algumas histórias e falou-nos dos habituais clientes e dos  turistas que, curiosos, espreitam o interior do moinho, e até tiram “alguns retratos para mandar para fora”.

Milho paga-se com milho
Mas atenção!, disse-nos. “Neste moinho não se fala em dinheiro. Aqui, os fregueses dão uma pequena parte do milho e o trabalho está pago”, afirmou o moleiro, frisando que sempre foi assim, já desde o tempo dos seus pais e avós, também moleiros.


Recuando no tempo, lembrou que aquele moinho também serviu de cama. Com oito irmãos e com uma casa com apenas dois quartos e uma cozinha, alguns “obrigavam-se” a passar a noite no moinho. Contudo, uma vez que os seus irmãos eram mais novos, normalmente tinha de “se sujeitar” e abdicar da cama quentinha para dormir num quarto frio e com cheiro a trigo.

“O moinho era frio porque a porta era virada para a serra, mas até não era mau de todo. Fechava-se a janela e a porta e dormíamos mais ou menos quentes. Até porque, na altura de Natal, por exemplo, nem dava tempo para aquecer a cama porque a minha mãe trabalhava noite e dia sem parar. E isto foi assim durante mais de 50 anos”, contou.

Com alguma nostalgia, referiu que, quando não ajudava a mãe a moer o trigo, trabalhava na fazenda a cultivar a terra. Naquele sítio nasciam tomates em abundância e, “para não se perderem”, fazia massa de tomate e ia vender a Machico para ajudar o seu pai a ganhar algum dinheiro.
E foi assim, “uma vida dura, tempos difíceis mas valiosos onde todos agradeciam pelo que tinham e ninguém reclamava ”.


Anos mais tarde, Agostinho recebeu uma carta do pai, emigrado no Curaçao. Tinha-o mandado buscar. Sem saber o que o esperava, partiu em busca de uma vida melhor. Para trás, deixou os irmãos, a mãe e o moinho, onde foi verdadeiramente feliz na sua infância.

Mas a viagem foi curta. Uma espécie de férias bem prolongadas, poderá assim chamar-se. Pois, passados quatro anos, regressou à Madeira.
Com saudades do moinho?, perguntamos. Agostinho apenas sorriu. Afinal, há histórias que merecem permanecer nos segredos dos Deuses.


Revelou apenas que no seu regresso a mãe continuava a trabalhar no moinho por contra de outrem eu nada havia mudado. Moía o trigo e o produto era dividido, metade para o patrão, metade para ela. Uns 50 quilos por dia, sensivelmente.
E assim foi, pelo menos até ao dono do moinho falecer e os herdeiros o colocarem à venda.


“Mas como é que este moinho com tamanha história de família pode ser vendido a alguém de fora?”, disse para os seus botões na altura. E foi então que, há 40 anos, decidiu investir as suas poupanças e comprar aquele moinho que hoje conta com cerca de 150 anos.
Trabalhou uma vida inteira mas há seis anos a idade começou a pesar e as pernas a acusar cansaço. Desde então nunca mais lá foi.


“Isto vai tudo acabando. Agora estou aqui com a minha mulher, amarrado a esta cadeira sem poder andar”, referiu o moleiro. “Esta juventude de hoje em dia já não quer trabalhar no moinho, nem se importam com essas coisas. Querem é televisões e telemóveis.

Às vezes, ainda dizem para eu ir lá ver mas como não percebo nada daquilo prefiro ficar aqui, à sombra, a olhar para o mar e a ouvir o som dos aviões que aterram no aeroporto”, acrescentou, olhando com um ar carinhoso para Joaquim, o único filho que ainda mantém o negócio de pé, nem que seja apenas uma vez durante ao mês.

A Junta de Freguesia de Gaula prevê apoiar a plantação de cereais, de forma a que o moinho continue a funcionar e pretende a reabertura de outro moinho.

Junta de Gaula apoia cultura do cereal A Junta de Freguesia de Gaula tem previsto, ainda para este ano, um apoio à cultura do cereal.
Nesta visita ao moinho, Élvio  Sousa revelou à MAIS que estão a trabalhar neste projecto com um produtor do sítio da Fazenda, em Gaula, “porque a produção do cereal por si só já garante a manutenção regular do moinho, pois só moí se houver cereal”.


O presidente da Junta de Freguesia local disse ainda que este moinho está preservado e bem consertado e que está inserido num projecto da rota da água, nos quais são estão também inseridos equipamentos como os lavadores de levada e as caixas de distribuição de água, num roteiro semanalmente percorrido por 120 turistas.

“Infelizmente este moinho só funciona uma vez por mês porque não tem cereal para o efeito mas se nós apoiarmos a cultura do cereal, por sua vez indirectamente conseguimos apoiar o moinho”, disse o autarca, sublinhando que a partir do mês de Setembro as  pessoas começam já a ponderar o plantio.Élvio Sousa revelou ainda que existe também um outro moinho naquela zona, conhecido como “o moinho da frigideira”, que devido à inexistência de água não funciona. Desta forma, a Junta já entrou em contacto com a ARM- Águas e Resíduos da Madeira- para o colocar em funcionamento mais breve possível.



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